quarta-feira, 25 de março de 2015

A oposição venezuelana aplaude a intervenção de Felipe González


María Corina Machado, em entrevista coletiva em dezembro.

O antichavismo considera que a intervenção do ex-chefe de governo espanhol na defesa dos líderes presos contribuirá para internacionalizar o conflito do país sul-americano


A oposição venezuelana celebrou ontem com entusiasmo o anúncio de que o ex-chefe de governo espanhol Felipe González se dispõe a participar na defesa de Leopoldo López e Antonio Ledezma, dois de seus líderes, que continuam presos. Os principais porta-vozes da oposição classificaram a decisão de González como um indício do renovado interesse da comunidade internacional pela crise sul-americana, que ontem viveu um novo episódio. Uma das filhas de Ledezma foi retida no aeroporto internacional de Maiquetia por uma operação antidrogas. Apesar da confusão inicial, e embora seu passaporte tenha sido retido, finalmente acabou sendo devolvido e ela foi liberada uma hora depois. 
Para Lilian Tintori, a esposa de Leopoldo López, preso há mais de um ano na prisão militar de Ramo Verde, é “uma honra contar com uma figura de escala internacional como o ex-chefe de governo Felipe González”. “Estamos esperando por ele”, comentou. Além disso, o coordenador da Mesa da Unidade Democrática, que aglutina os diferentes partidos opositores, Jesús Torrealba, considera que a decisão de González significa que “o mundo está sentindo que a situação na Venezuela é insustentável”.

A intervenção demonstra até que ponto está mudando a percepção da crise na comunidade internacional

María Corina Machado
Por outro lado, a ex-deputada María Corina Machado assegurou que o fato de que Felipe González tenha assumido a causa “demonstra até que ponto está mudando a percepção da crise na comunidade internacional”. “Hoje sabemos que contamos com os democratas espanhóis. Leopoldo López, Antonio Ledezma, Daniel Ceballos e todos os presos políticos não representam somente uma parte da sociedade, mas as lutas de um povo que está enfrentando uma ditadura que possui conexões com o crime organizado. Nosso mais profundo agradecimento a ele”, acrescentou Machado. “O significado da figura de Felipe González para a Venezuela não é menor. Conhecemos sua longa relação e estreita amizade com os democratas deste país e seu papel crucial na transição espanhola, suas lutas pelos direitos humanos e a democracia”, continuou.
A decisão de González recebeu o respaldo de diversos líderes latino-americanos. “Apoio por completo a iniciativa de Felipe González de assumir a defensa de Leopoldo López e do prefeito Ledezma”, afirmou o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso: “Chegou a hora de que as vozes democráticas e especialmente os Governos democráticos da América Latina protestem contra os abusos praticados pelo Governo da Venezuela. A falta de respeito aos direitos humanos das vítimas constitui uma afronta política para todos”, acrescentou. Cardoso enfatizou que os líderes presos são “lutadores pacíficos em prol do que eles consideram o melhor para seu país, com o agravante de que um foi eleito pelo voto do povo e o outro é o líder nacional de seu partido. Os que amam as liberdades democráticas não podem se calar. É hora de que seja feita justiça na Venezuela com a liberação de López e de Ledezma, assim como das outras vítimas da intolerância antidemocrática”, concluiu.
O ex-mandatário chileno Ricardo Lagos também aplaudiu a decisão de Felipe González. “Segue consequentemente o que foi sua vida em todos estes anos”, enfatizou Lagos, membro do Clube de Madri, que lembrou: “Em 1977, Felipe González chegou ao Chile para interceder por dois presos políticos de Augusto Pinochet, Erick Schnake e Carlos Lazo. Foi uma visita bem-sucedida. Agora, tantos anos depois, frente a uma situação complexa e difícil como a da Venezuela, onde a solução precisa ser política, Felipe González, refaz o mesmo caminho. Desejamos que tenha sucesso”, acrescentou Lagos.
Também se pronunciou o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), o chileno José Miguel Insulza: “Acho que seria bom para o diálogo e a reconciliação na Venezuela se López e outros detidos fossem julgados em liberdade”, comentou, seguindo a linha do Departamento de Estado do Governo dos Estados Unidos, lembrando que pediu ao venezuelano que permita a todos os detidos, “inclusive López e Ledezma, as proteções legais e julgamentos justos às quais têm direito”.
O também ex-presidente chileno Sebastián Piñera comemorou a notícia: “Felipe González vai contribuir para que o mundo possa conhecer a grave e profunda crise que a Venezuela está enfrentando. Além disso, sua participação será um incentivo para que este silêncio, indiferença ou cumplicidade com que muitos Governos enfrentaram a crise da Venezuela, comece a terminar”. Piñera, junto com o ex-presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, viajou em janeiro para Caracas para visitar o líder opositor Leopoldo López na prisão, mas a polícia da Venezuela proibiu a entrada. Maduro criticou a viagem dos ex-presidentes, que conseguiram se reunir com vítimas de violações aos direitos humanos, jornalistas e participaram de um seminário sobre a democracia e o futuro do país. “Conseguimos observar com nossos próprios olhos o que está acontecendo para expressar com força e clareza nossa opinião”, apontou o ex-mandatário chileno. Além de oferecer toda a colaboração a González, Piñera afirma que a proteção legal que ele oferecerá a López e Ledezma é um gesto importante: “O fato de que um ex-chefe de governo espanhol e ex-líder do PSOE assuma a defesa de dois presos políticos da Venezuela é um símbolo muito forte”, destacou. Para Piñera, “todos os governos da América Latina deveriam levantar suas vozes de maneira forte e clara. Não estamos falando de política nem apoiando um regime de esquerda nem de direita, mas defendendo a democracia, a liberdade, os direitos humanos, que são valores que não reconhecem fronteiras”.
Às felicitações se uniu o ex-presidente do Peru, Alejandro Toledo: “Tem nosso apoio”, assegurou o ex-mandatário, que, sobre a situação da Venezuela, comentou: “Não é suficiente ter sido eleito democraticamente com os votos, é indispensável governar democraticamente”. “A situação da Venezuela está piorando, em grande parte, porque chefes de Estado em exercício e também alguns ex-mandatários ficam em silêncio e se tornam cúmplices das atrocidades do senhor [Nicolás] Maduro, violando os princípios básicos da democracia: a liberdade de expressão, os direitos humanos, a independência dos poderes, a forte repressão aos jovens”.
Este jornal tentou obter, em vão, uma avaliação oficial em Caracas e entrou em contato com a Embaixada da Venezuela na Espanha, que indiciou uma entrevista coletiva com deputados chavistas convocada para hoje em Madri.
Com informação de Antonio Jiménez Barca, Silvia Ayuso, Rocío Montes, Jacqueline Fowks e Javier Lafuente.
  
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